Mochilando depois dos 40 anos de idade e sozinha!

A gaúcha de Pelotas, Rachel Correa, já foi mochileira aos 20 anos e agora está mochilando sozinha aos 45. Tinha o sonho de conhecer a Índia e pensou em aproveitar que o filho estava a caminho da Austrália e ir junto com ele para o outro lado do mundo.

Aos 20 anos fui mochileira. Era uma boa idade para se aventurar pelo mundo, mais fácil ainda quando se tem um parceiro. Foram 4 anos mochilando em países da Europa e 1 ano em Israel. Viajando e trabalhando para fazer dinheiro para viajar mais. Depois de 5 anos de estrada, fui passar férias no Brasil e na despedida do meu namorado, engravidei… Resolvemos, então, voltar para o Brasil. Aí veio o filho e 3 anos depois, a separação.

A minha “faculdade de mochileira”, além das loucas e incríveis experiências, me deu também uma boa fluência em inglês e espanhol e me conduziu a minha profissão: Guia de Turismo no Rio Grande do Sul, na Bahia e no Rio de Janeiro.

Criei meu filho, tive o trabalho dos meus sonhos, casa, carro, viagens curtas e tava tudo dando certo em um lugar, quando eu decidia mudar de cidade, e acabava dando tudo certo também… Eu não queria criar raízes e me prender em um lugar só.
Vinte anos se passaram, meu filho cresceu, já tem 19 anos. É hora dele começar a explorar o mundo e eu não vou ficar só assistindo de camarote pelo Facebook. Então, me desfiz de tudo que me segurava e com a grana do aluguel do meu apartamento em Salvador e alguma poupança, caí no mundo também, mais precisamente na Ásia, onde tudo é mais barato.

Hora de cair na estrada novamente

Sempre tive o sonho de conhecer a Índia. Como meu filho ia para um intercambio na Austrália e é tudo pro mesmo lado, resolvemos mochilar juntos. Embarcamos para Delhi, na Índia, com passagem de volta em 3 meses, que já perdemos.
Rodamos 1 mês pelo norte da Índia. Fomos de leste a oeste, sem planos, dormindo em hostels, em quartos compartilhados. Eram quartos com outras 10, 12, 20 pessoas, que muitas vezes nos ajudavam a traçar nosso caminho, através das suas experiências.

Isso faz parte do “mochilão”: Conhecer pessoas que estão no mesmo barco que você e vão trocando dicas e informações, que muitas vezes são mais valiosas do que sua pesquisa em um guia ou no Google.

Pegamos trens, metrôs, ônibus e tuk tuks. Nos misturamos com o povão sem medo, sem não-me-toques, sem preconceitos. Como bons mochileiros economizamos muito, gastando uma média de U$15 por dia, cerca de 50 reais, cada um, que no mês daria uns R$1.500,00… Tá bom demais, só meu aluguel no Rio de Janeiro era R$1.200,00 num apartamento minúsculo.
Um mês passou tão rápido! Meu filho foi seguir seu rumo na Austrália e eu fiquei mais 2 meses na Índia. Fui rumo ao sul, ao desconhecido, ao instigante e desafiador mundo de uma mochileira, mulher, na Índia, sozinha… Mas quem mochila, nunca está só.

 

O dia-a-dia de uma mochileira

Já parei em lugares baratos que não tinham turistas estrangeiros. Em Kanyakumari, no extremo sul da Índia, por exemplo, não havia estrangeiros. Não é fácil, mas é bom porque você acaba interagindo mais com locais.Mesmo quando eles não falam inglês e eu não falo a língua deles, procuro sempre aprender sobre modo de vida tão diferente do meu. A barreira da língua, no fim, é o principal desafio.

Por outro lado, o processo de viajar sozinha aos 45 anos é o mesmo de 20 anos atrás. Eu economizo ficando em hostels e buscando comida local, que é mais barato, e acabo fazendo muitas amizades, não importa a idade. Já dividi quarto com gente de 17 a 60 anos, ambos são uma escola e são essas pessoas do caminho, que ajudam a traçar o meu.

Sobrevivi os 2 meses sozinha na Índia, o visto me obrigava sair do país, e eu parti para um país pouco conhecido pelos brasileiros, e tão conservador quanto a Índia: Sri Lanka. Um país que nunca pensei em visitar e adorei!

Sozinha na Índia

O fato de ser mulher viajando sozinha na Índia não é muito confortável. O desconforto foi diminuindo a medida que ia encontrando tantas outras mulheres viajando sozinha, como eu. Fato é que mulher sozinha é, sim, um pouco discriminada na Índia e no Sri Lanka, mas nada que prejudique a viagem.

Sem contar que lidar com o fato de não “ter um marido” em países tão conservadores como a Índia e o Sri Lanka era desconfortável. Até porque isso era a primeira pergunta que me faziam: “Você não tem marido?” No começo eu dizia “não”, e as pessoas me olhavam com um olhar de condenação. Depois passei a responder “ele morreu!”, e aí melhorou bastante. Diziam “oh, sorry” e deixavam pra lá.

A melhor coisa de viajar é que cada lugar e dia é uma nova descoberta. Sempre rumo ao desconhecido, sempre com novas experiências.

Países visitados

Agora estou mochilando pela Tailândia. Já passei por Bangkok e estou desfrutando as ilhas paradisíacas. Por estar perto de começar a época de monções na Ásia, aquelas chuvas fortes, onde a maioria dos lugares alagam, comércio costuma fechar. Então, não é uma época boa para praia.

Como nunca gostei de fazer planos, meus roteiros são sempre improvisados e não tenho nada marcado. Estou pensando em aproveitar essa época das chuvas para buscar um trabalho voluntário, desses que você ajuda de alguma forma em troca de acomodação e comida. Assim torno esse tempo mais útil ajudando outras pessoas e eu acabo economizando para viajar mais em tempos de sol.

Hoje decidi que vou dar um pulinho ali na Malásia antes disso, pois estou muito perto, e sai super barato!
Ainda pretendo seguir mochilando por alguns anos, não tenho a mínima ideia de quando voltarei ao Brasil. É a vantagem de ter passado dos 40, com a vida já feita e filho criado… Agora é só curtir esse mundão!

Rachel Correa

2017-07-24T14:22:38+00:00