A fantástica viagem de moto pelo Vietnã que não aconteceu

Barbara estava fazendo um mochilão pela Ásia. Conheceu várias pessoas pelo caminho e aprendeu que uma viagem de moto pelo Vietnã pode ser mais arriscada do que parece.

Quando ainda estava na Índia, na terceira semana de viagem, Barbara conheceu Carmen, uma holandesa toda “quebrada”.

Estavam em Goa, litoral no sul do país, e Carmen andava de muletas, tinha uma das pernas torta e cicatrizes para todos os lados. Uma delas cruzava do tornozelo ao joelho, numa enorme curva. No ombro, mais uma marca eterna.

Estava acompanhada de uma amiga, Mel, que viera da Holanda para dar aquele suporte. Não que Carmen realmente precisasse. Ela era forte e independente. Apesar das limitações, tentava viajar normalmente. “Estou bem”, dizia sempre quando alguém se propunha a ajudá-la a subir num tuk tuk ou para lhe dar um assento mais confortável no jardim do hotel.

Carmen fazia questão de pedalar até a praia todos os dias, carregando as muletas atrás. A situação foi resultado de um acidente de moto no Vietnã meses antes. Foi para o hospital, ficou em estado gravíssimo e teve que voltar para casa. Passou semanas internada e correu risco de morte. Recuperada, nessas condições, estava de volta a Ásia para terminar sua viagem, mesmo que fosse de muletas e a passos lentos.

Por outro lado, Barbara estava apenas começando a viagem. Cheia de empolgação, com ego inflado e sentindo uma liberdade que não cabia nela. Porém, não entendeu a história de Carmen como deveria. “Acidentes acontecem”, pensou na época.

Mesmo assim, tomou aquilo como uma lição. Ver Carmen a mostrou que deveria reavaliar quando necessário. Não sabia exatamente quando precisaria disso, mas esse pensamento esteve sempre com ela.

A viagem seguiu, cruzou muitas fronteiras e durante mais de quatro meses viu viajantes quebrados pela Ásia. É, acidentes acontecem e aos montes! Barbara ouviu diversas histórias e chegou ao Vietnã sabendo bem do que se tratava.

Viajar de moto pelo Vietnã

É muito comum entre os mais aventureiros explorar o país de moto. O roteiro é sempre cruzar de norte a sul ou de sul a norte, e fazer isso sobre duas rodas é absolutamente tentador.Barbara cogitava a possibilidade mesmo antes de chegar a Hanoi, sua primeira parada, no norte do país.

Hanoi, a capital vietnamita, é talvez o maior caos motociclístico do mundo. Atravessar uma rua é um desafio. Não há leis de trânsito. Quer dizer, as leis que existem são completamente ignoradas. As calçadas não são mais para pedestres, viraram estacionamento para as motos e elas são incontáveis. O farol é apenas decorativo.

São dois, três e às vezes até quatro passageiros numa mesma moto! Quase como num jogo de bate-bate, vale a lei do mais ágil. Com tanta oferta e quase nada de fiscalização, não é de estranhar a facilidade com que se compra uma moto ali – cena que se repete em outros lugares.

Quanto custa uma moto no Vietnã?

Uma motoca, a maioria do modelo Honda Wind, muitas vezes falsificada, sai por cerca de 300 dólares. O pessoal chega, compra uma magrela motorizada, com um documento de décadas atrás por uma pechincha e cai na estrada. No outro extremo do país, para quem vai do norte geralmente em Ho chi Min (Saigon), vende-se a moto por pouco menos do que o investido na chegada.

E o preço é apenas o primeiro atrativo para quem quer viajar. Somado a isso, tem o litoral inteiro do país, nada menos que 3.444 quilômetros de costa. Há ainda os Parques Nacionais que saem da rota litorânea e levam para o interior desse filete de terra voltado para o Mar da China, cara a cara com as Filipinas.

Claro que a Barbara se empolgou. Foi visitar uma garagem de motos, a mais bem avaliada no site Tripadvisor. Dirigiu para testar algumas. Chegou a ter dúvida entre uma automática ou semi.

Ir ou não de moto?

Nos dias que se seguiram, ir ou não ir era uma das decisões mais importantes desses meses na estrada. Era hora de Carmen subir na minha balança.

Por isso, escreveu para ela, lá de Hanoi. Sua primeira mensagem em resposta foi: “Você está no Vietnã, né? Meu país preferido”. Essa não foi a resposta esperada, ainda mais depois que a Barbara conheceu em Goa.

O casal de hippies

Horas depois, sentada numa mesa de calçada e ainda analisando os prós e contras, Barbara viu quando um casal de hippies viajantes desceu de um táxi. Preconceitos a parte,  achou a cena inusitada, porque aquele não era o tipo de pessoas que anda de táxi. Cena que seria incomum em qualquer outro lugar, mas não em Hanoi.

Bastou que fechassem a porta do carro para constatar: estavam imobilizados, ele com a perna e ela com o braço. Ele caminhava com muita dificuldade e ela tinha curativos por todo o corpo. Sentaram-se no mesmo restaurante que a Barbara. Ele pediu um banco para esticar o joelho. Junto com o menu, veio a pergunta: “o que houve?”, disse o garçom. A resposta, óbvia, “acidente de moto”.

Pessoas que se deram bem

Entre histórias, Barbara afirma ter visto muita gente que se deu bem demais. Afinal de contas, era roteiro de 2.500 km que levava quase um mês e era inesquecível.

No fim da viagem, três amigos que ela conheceu em Hanoi e com quem visitou a loja de motos fizeram a rota em 30 dias com apenas uma deslizada sem gravidade de um deles.

Mulheres sozinhas e de moto pelo Vietnã

“Vi mulheres sozinhas também, a malaia (quem vem da Malásia) Julie estava encantada e seguiu assim e inteira até o fim da viagem! Até vi fotos lindas no Facebook”, conta Barbara.

Mesmo tendo pago uma grana num seguro saúde, ela preferiu não arriscar. O conforto de continuar viajando com poucos arranhões, carregar a mochila numa boa, poder ir a qualquer praia, andar e não sentir dor, prevaleceu.

Essa frustração, porém, não vai durar. “Me lembro de Carmen e sei que a gente sempre pode voltar. Voltarei. E esse país vai me emocionar e me questionar mais uma vez”, afirma.

Barbara Raffaeli é colaboradora do Mulher na Estrada e sempre conta um pouco de seu mochilão pela Ásia.

2017-08-06T18:56:46+00:00