Cuidando de elefantes na Tailândia

A Patrícia mora em Brasília e tinha um bucket list com muitas coisas para fazer mundo afora, inclusive visitar elefantes na Tailândia. Estava firme e forte trabalhando em um projeto que devido a crise no Brasil acabou não sendo renovado em 2016. Ai pensou, por que não aproveitar essa oportunidade para viajar?

Fez um plano para realizar boa parte do que queria e caiu na estrada. Um de seus sonhos era fazer um voluntariado com elefantes e para isso ela incluiu a Tailândia no roteiro.

Que projeto é esse que você foi fazer na Tailândia?

Conheci o ENP no Lonely Planet. Entrei no site deles e me inscrevi para o Week Volunteer Work. O ENP é uma Fundação que existe há mais de 20 anos. Sua fundadora é Lek Chailert, uma mulher incrível, que dedica sua vida aos animais. É uma das mulheres mais especiais e incríveis que já tive o prazer de conhecer pessoalmente. O coração é gigante, o sorriso é largo e as atitudes dela estão mudando a realidade dos elefantes na Tailândia e nos países vizinhos. Os voluntários são divididos em grupos e cada dia tem tarefas diferentes para cada um deles. As tarefas são: limpar cocô dos elefantes (que é ótimo porque você pode estar mais perto deles); preparar a comida (que no final sempre íamos alimentá-los); limpar o parque; colher milho pros elefantes (que apesar do trabalho braçal é super divertido) e dar banho nos bichinhos.

Além do trabalho com elefantes o que mais gostou no projeto?

Também tem a parte social de conhecer pessoas de quase todos os cantos do mundo e trocar experiências. É bacana ver o Universo arquitetando esses encontros e como a energia flui. Você começa a perceber que tem muita gente que pensa como você. Me dá uma sensação de pertencimento ou de que não sou tão diferente assim como meu pai pensa que sou.. rss.. Uma semana no ENP não se resume a apenas acordar cedo, trabalhar duro em alguns tarefas, passar algum tempo com os elefantes e tirar fotos para o Facebook. Significa transformação! Que pode ser sutil para alguns, ou profunda para outros, depende de quão disponível  a pessoa está. Certeza que a Patrícia que chegou no ENP não é a mesma que saiu de lá. Não tem como não sair transformado!

O que você descobriu sobre os elefantes que são usados no turismo enquanto estava na Tailândia?

O elefante é o animal símbolo nacional da Tailândia. Eles são considerados sagrados e tem uma relação muito forte com a história e os costumes tailandeses. São animais que representam sabedoria, poder, longevidade e trazem boa sorte. A população de elefantes asiáticos vem diminuindo nos últimos anos. Hoje restam cerca de 6.000 elefantes (o que antes era 300.000).

Turistas montados nas costas dos elefantes é o mais comum de ver por aqui. Fora isso, tem a indústria moveleira, que além de destruir as florestas, usa os animais para carregarem toras pesadas de madeira nas montanhas. Para que o animal possa fazer tudo isso, ele é treinado em um ritual chamado Phajaan. Esse treinamento é torturante e eles buscam com isso “quebrar o espírito do elefante”.

Em resumo, os bebês são separados de sua mãe e são confinados em gaiolas que eles não conseguem se mexer. Daí eles ficam dias a fio (sem parar) sendo torturados com todas as atrocidades inimagináveis, privados de sono, comida ou água. As torturas e maus tratos vão continuar por toda a vida do animal, menos intensas, mas elas não cessam.  Ah, só pra constar, isso ocorre em toda a Ásia, não só na Tailândia.

Depois de muito pensar, comecei a refletir o que levam as pessoas a serem parte disso. Desde o treinador, que na minha opinião faz isso pra alimentar um mercado lucrativo (e de onde ele tira o sustento de sua família), até os turistas que, muitas vezes sem saber, contribuem para tudo isso. Lek nos contou que muitas vezes quando ela está em lugares onde as pessoas passeiam de elefantes ela se aproxima dos turistas e pergunta: “Você tem ideia do quanto esse animal sofreu pra aceitar que alguém suba nas suas costas?” As respostas geralmente são as mesmas: “Elefantes são fortes e podem aguentar”, ou pior “Sinto muito, eu já paguei pelo passeio”.

O que acha que podemos fazer para mudar essa realidade?

Quando eu vejo a situação que existe por trás do turismo com animais, sinto coragem para tentar mudar isso, pois tenho a necessidade de viver em união, onde as pessoas entendam que elas são parte de um Todo; que suas ações não são isoladas. Por isso, da próxima vez que forem viajar (ou mesmo turistar na sua própria cidade), escolha com atenção seus passeios. E não se sinta culpado ou envergonhado caso você já tenha andado nas costas de um elefante, ou participado de atividades com animais. Essa não é minha intenção, porque eu mesma já fui duas vezes no Sea World e nadei com golfinhos em outra ocasião. Coisas que não faço mais depois de ter assistido o documentário Blackfish.

Outra coisa, se você trabalha com turismo vendendo pacotes, não venda esse tipo de passeio. Eu perdi as contas de quantas vezes me ofereceram isso na Índia. Mas nem tudo está perdido! Se seu sonho é andar nas costas de um elefante, ou interagir com animais (que é super bacana), faça pesquisa e visite lugares que de fato se preocupem com a questão animal, que não usam violência no treinamento. Se for à Chiang Mai, passe pelo Elephante Nature Park (eles tem centros em outras cidades também). A questão toda se resume em ter consciência, e coerência, na hora de viajar, de se alimentar, de se vestir e por ai vai.

A Patrícia conta mais sobre esse mochilão de 4 meses no site Meu Guia Meu Coração.

2017-07-19T15:49:07+00:00