Medo durante uma viagem de volta ao mundo

Uma reflexão sobre como é viver quase quatro anos viajando em uma barraca e sobre o medo durante uma viagem de volta ao mundo.

Em uma viagem de volta ao mundo tudo parece mil maravilhas. Em boa parte do tempo realmente é assim. Mas não podemos esquecer que seu maior inimigo são seus próprios medos e eles te acompanham sempre, independente do lugar físico no globo que você esteja.

Apesar de geralmente a Rachel não falar muito sobre si mesma, e sim sobre o modo como ela vê as coisas durante a viagem, esse texto é um relato pessoal dela. Afinal, dizem por ai que colocar para fora ajuda. E quem sabe o texto não pode ser um processo disso?

Seus medos te acompanham independente do lugar onde você esteja

Há mais de dez anos a Rachel teve uma crise do pânico. Tudo começou com o cruel assassinato de um casal de adolescentes que acampavam perto de São Paulo.

Na época, por opção, ela não tinha televisão e fazia cursinho no Etapa. Só ficou sabendo do acontecido pela capa da Revista Veja e pelos colegas de classe.

Foi um longo processo para resolver aquilo. Já não dormia mais em casa sozinha. Não pegava o mesmo táxi e não andava nem dois quarteirões a noite em Vila Madalena, onde morava na época.

De qualquer forma, essa fase difícil, felizmente, passou. Apesar de não ter tomado medicação, a yoga e as pessoas ao seu redor a ajudaram muito e aos poucos voltou a vida normal.

Como controlar o medo durante uma viagem?

Uma amiga da Rachel, que também teve síndrome do pânico, a perguntou certa vez: “como você consegue viajar pela África dormindo em uma barraca se seu problema é segurança?” A resposta? Rachel realmente não sabe.

Ela e o Leo, seu marido, conversaram muito antes da viajar e ele sempre soube que segurança era a maior preocupação dela.

“Apesar de ouvirmos muitos relatos dizendo o quão romântico é parar em uma praia deserta e acampar, raramente fazemos isso”, comenta Rachel. O máximo que eles fizeram foi dormir em postos de gasolina na Alemanha. O que, para ela, passa mais segura do que muitos campings na América Latina.

Medo pela falta de segurança

“No geral me sentia segura. Mas, em alguns momentos sucumbia ao medo, já que dormíamos em uma barraca em cima do carro e poderíamos facilmente ser abordados em qualquer situação”, confessa Rachel.

Depois que saíram do Brasil, a Rachel teve uma pequena crise em um camping na badalada Punta del Este, no Uruguai.

O camping era gigante. Sem iluminação, chovia e não tinha uma alma viva por perto. Ela irrompeu em lágrimas, totalmente desesperada. Dividia com o Leo como se sentia insegura e exposta e a única coisa que ele dizia era: “querida, quer levantar e ir para um hotel?”

Para quem já teve algum tipo de síndrome do pânico entende o quanto isso é algo incontrolável. E apesar do medo e do choro, ela não quis ir para o hotel por acreditar que era algo da sua cabeça. Felizmente, nada aconteceu.

O medo de acampar

Acampar na América Latina e na África eram as maiores preocupações da Rachel. No entanto, os países que eles passaram pela África se mostraram muito seguros, já que europeus e sul africanos estão sempre viajando lá e os campings geralmente estão sempre com gente.

Mas, como no Uruguai, o medo vem sem avisar. Em Uganda, enquanto acampavam em um seguro hotel, o medo venceu a razão novamente.

O vilarejo próximo, naquele dia em festa pelas eleições recentes, não a deixava dormir. Entretanto, o problema não era o barulho. E sim o fato de que boa parte dos acontecimentos do passado foram devido as divergências ideológicas e políticas.

As cenas de corpos esquartejados do filme o “Ultimo Rei da Escócia”, que conta a história de Adi Amin, que governou o país na década de 70, não saía da cabeça da Rachel. Foram horas de conversa com o Leo. Dessa vez, em vez de irromper em lágrimas, ela simplesmente abriu um livro e seguiu lendo até a bateria do ipad acabar e ser vencida pelo cansaço.

A superação do medo durante uma viagem de quatro anos

Ao longo desses anos viajando, o casal acampou em muitos buracos e felizmente não foram expostos a nenhuma situação de perigo.

“Já ouvimos muitas histórias de quem foi. Porém, sabemos que estar em uma barraca, em cima do carro, mundo afora, não é o mesmo que estar no nosso apartamento em São Paulo”, conta Rachel.

Acontece que isso faz parte da viagem. Aprender com essas situações é essencial para poder aproveitar toda a experiência de viajar por tanto tempo.

Rachel Spencer

A Rachel fez uma volta ao mundo de carro de 2013 a 2016 passando por 78 países. Se quiser acompanhar mais da viagem, é só acessar o Viajo logo Existo.

2017-08-06T10:46:35+00:00