Ganhei uma bolsa de estudos na China, você iria?

A Tati foi parar na China em 2o12, seu objetivo era aprimorar seus conhecimento na Medicina Tradicional Chinesa, gostou tanto que quando voltou ao Brasil sentiu-se meia perdida e resolveu cair na estrada novamente.

Texto de Tatiana Cruz, carioca. Vive atualmente em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

Como foi a oportunidade de ir para a China? 

Em 2012 eu fui para a China realizar um Curso de uma técnica da Medicina Chinesa, chamada Tuiná, além de realizar um estágio ambulatorial no China Beijing International Acupuncture Training center, hospital referência na capital chinesa. Permaneci por lá, por um período de um mês junto de um grupo de mais nove brasileiros acupunturistas. Ao retornar para o Brasil, já tinha a certeza absoluta que queria retornar o mais breve possível para aprofundar os meus estudos na MTC (Medicina Tradicional Chinesa).

Foram 8 meses de dedicação total para esse projeto que incluiu pesquisas, planilhas, listas, livros e horas de estudos.

Com o orçamento limitado na época, por ter tido um gasto alto na primeira viagem, comecei a estudar sozinha chinês. Através de vídeos no youtube, compra de livros didáticos, páginas na internet e aplicativos, comecei ali a minha trajetória pela China, tentando me familiarizar com aquele novo mundo, de sons e sinais adversos da minha realidade.

No decorrer dessas pesquisas, conheci em um fórum do Projeto Ciências sem Fronteiras, o único brasileiro que estava na China realizando o doutorado na minha área. Busquei informações para realizar da mesma forma que ele o meu projeto, mas eu tinha um pré–requisito que nao me encaixava: a idade.

O Governo da China tem um programa de Bolsas de Estudos para a Língua Chinesa, no mundo todo, mas no Brasil e na minha cidade realizado pelo Instituto Confucius/PUC-RJ, onde ele seleciona estudantes para realizar o estudo da língua na China. Eu simplesmente inverti as ordens dos meus projetos, ao invés de ser levada a China pela Medicina, fui levada pelo idioma e lá, consegui conciliar os dois sonhos.

Principal dificuldade encontrada antes da viagem?

A principal dificuldade era encontrar as informações para todas as dúvidas que eu tinha, e acreditem eram muitas, haja visto que a China possui uma cultura totalmente adversa a nossa. Você pode achar estranho eu falar nos dias de hoje sobre falta de informação, ja que vivemos em um mundo tão informatizado e globalizado, porem eu me deparava com um problema que era a língua. Paciência e persistência foram fatores primordiais nesse período.

Você já falava a língua do país? Como foi essa adaptação?

Falo que eu já estudava a língua, o que é bem diferente de você saber a língua, o que me dá a liberdade de dizer que eu não sabia me comunicar. Mesmo tendo tido esse contato prévio com a língua, me sentia totalmente vivendo um mundo paralelo.

Você foi sozinha? Como é estar na China sendo mulher e sozinha?

Eu digo que fui sozinha e ao mesmo tempo não, pois conheci no aeroporto os outros selecionados no processo. Eram mais 4 rapazes e após uns 2 meses chegou outro para se juntar ao grupo. Ir para um país como a China requer antes de tudo, desapego, desprendimento, flexibilidade, paciência, tolerância e um profundo mergulho interno para poder descobrir nessa nova realidade suas capacidades e superar suas limitações.

O que te preocupava antes da viagem? O que fez para mitigar essas preocupações?

Eu me preocupava muito com a minha saúde, por saber as questões relacionadas a poluição na China e higiene. Fiz um check up extenso com todos os exames que você possa imaginar para eu poder ir com a minha cabeça tranquila de que minha “máquina física” estaria preparada para a batalha.

Quando já estava na viagem, essas preocupações fizeram sentido?

Fizeram total sentido. Pois eu vi como estava vivendo em um mundo com diferenças culturais opostas. E inexistentes dentro das minhas referencias de realidade. Mesmo com todos os cuidados que eu tive, ocorreram assim alguns problemas. Mas que avalio como fazendo parte da experiência de viver algo novo.

O que a viagem te proporcionou como pessoa e como profissional?

Como pessoa me proporcionou a maior riqueza que eu poderia ter: conhecer mais a mim mesma. Isso é algo que não tem preço! Profissionalmente então, me abriu a mente para outras visões do mundo, do ser humano. Não apenas numa questão de ter dado ao meu Curriculum mais qualificação técnica. Mas me deu mais qualificação como terapeuta, no cuidado e olhar para o outro não apenas como paciente.

Iria de novo?

Sim, iria com certeza. Na realidade a busca por estudar a língua foi justamente para que no futuro eu tivesse autonomia de seguir os meus estudos por la de forma indepentente, sem precisar de grupos ou de tradutores.

O que você teve acesso lá que não teria tido no Brasil no sua profissão?

Eu nao teria, como não tive acesso a realidade que a Medicina Chinesa tem como capacidade de realizar a população. O contato com médicos e professores chineses aos quais tem muito orgulho em propagar o conhecimento dessa medicina e onde ao saberem da minha origem (do outro lado do mundo) daquele mundo onde “Lonaldo” e Kaká são reis…

A melhor coisa de viajar?

A melhor coisa de viajar é ter a sua companhia em lugares aos quais você um dia viu em um filme. Ou que os seus sonhos lhe remeteram ou estar atrás de sair da sua zona de conforto. Abrir os seus olhos, mente e coração para um novo mundo. Além daquele provincianismo que o seu dia a dia traz a você. Lhe dando a falsa impressão de que tudo está sobre controle.

Me traz a sensação de que não existem limites. Nem pra mim e nem para o meio que me cerca. A não ser aqueles que você mesmo se coloca. De resto, tenha fé, tenha como leme o seu foco. E aproveite cada momento, porque essa viagem não tem volta, nem com o seu retorno.

2017-07-23T17:43:06+00:00